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Torpor
Sozinhos somos nada
Sobre seus olhos
Sobre seu trono
O grande salmão
Inocência e coragem frente ao estranho
Fila para as profundezas
Equí­voco
Eles serravam os galhos em que estavam sentados
Domesticado
Aprisionado
Animal irracional
Afinidade Animal
A abelha

                              Em meu último projeto, chamado “Feche os Olhos para me Ver”, a produção escultórica de seres ficcionais foi carregada de referências da natureza, representados por híbridos da fauna e da flora. Nesta série, me volto para a produção de composições simbólicas por meio da técnica da gravura em metal e mantenho o meu caminho sobre o mundo da animalidade. Os seres, não mais ficcionais, trazem consigo mensagens através de combinações que revertem as posições habituais de cada criatura no mundo, gerando assim novos campos de significação.  

                              Iniciei o projeto anotando recortes de ideias, metáforas e representações do emblemático universo da natureza humana. Encontrei na gravura em metal uma oportunidade em comunicar mais adequadamente esse conjunto de visões. Quando comecei o processo técnico da gravura tive a indispensável orientação da artista Nara Amélia sobre o material químico e as ferramentas fundamentais para o processo de gravação das placas. Para os testes de impressão, busquei ajuda com o impressor Marcelo Lunardi, que atenciosamente me recebeu em suas aulas no atelier Studio Jardim por um mês. Ali, pude por fim concluir a série com as impressões em papel Hahnemühle, feitas por Lunardi.         

                              Remeto a formação artística de meu trabalho ao meu relacionamento com elementos da natureza, lembranças de infância e da presença animal no entorno de onde cresci. Essas visões formaram agrupamentos de imagens poéticas que se transformam e se recriam sobre o arranjo de minha produção. Memórias que influenciam a maneira com que meu imaginário flutua; se tornando processos de jogo, que por combinatória e desconstrução, engendram de modo indefinido novas interpretações. 

Vejo nesta nova série a possibilidade de acessar caminhos indefinidos. O espectador é convidado a entrar no universo da animalidade, rico em características simbólicas, e por meio das alegorias por mim criadas constituir os seus próprios significados. Por isso, interessa-me a possibilidade da criação e construção do imaginário, das histórias, analogias e enredos, onde o próprio espectador se apropria das imagens em uma viagem interior.  

                            Relaciono os animais, elementos da natureza e/ou o homem em cenas que portam reflexões sobre a nossa existência e ações, para isso, absorvo os símbolos que as figuras carregam consigo e construo situações inusitadas, improváveis ou mesmo surreais. A natureza humana é composta por diversas contradições, a série remete às essas ações ordinárias do homem, atitudes carregadas de irracionalidade, emoções e anseios que geram em suas vidas resultados inesperados, sejam eles bons ou ruins. As gravuras direcionam o olhar para essas características mundanas, sendo os principais protagonistas desse enredo, os animais. As cargas simbólicas unidas a uma estranha composição direcionam mensagens ao humano, os seres passam a inverter os papéis dos saberes, por vezes manifestando o homem como irracional ou provocando a sensação de consciência humana nos animais.

                         Atos inconsequentes praticados por humanos, como a violência gratuita, a força bruta, a grosseria e a desordem, não são de todo equivalentes a atitudes animalescas, sendo que as atitudes desumanas não sugerem uma animalidade e sim a falta de humanidade. Encontro nos animais uma capacidade inteligível e um sentido de coletivo muito equilibrado: os animais possuem diversas habilidades como seres sociáveis. Esses fatores são elementares à reflexão para a conscientização da natureza humana, de seus instintos, impulsos, emoções e expressão.

                        Componho relações incomuns entre os seres, esses vínculos conduzem para além dos padrões estabelecidos pela nossa cultura androcentrista, que muitas vezes faz com que as pessoas tenham dificuldade de perceber os outros seres como indivíduos de singularidades, de expressão, de afeto e de inteligência como um igual. As cenas elaboradas nos aproximam de nossa própria natureza animal, gerando analogias que se destinam a questões íntimas do homem, assim como motivam refletir sobre a partilha permanente do meio ambiente, lembrando que estamos inseridos em um ecossistema, convivendo com diversos outros seres. 

                       Valorizando os saberes do coletivo na constituição da consciência dos indivíduos, as gravuras apresentadas propõem uma inversão das posições de poder, de lugar no mundo e de relacionamento entre os seres, quebrando padrões estabelecidos pelo homem e pela sociedade, conduzindo à reflexões sobre o modo de como estabelecemos nossas relações entre pessoas, animais e nossa natureza interior.

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